Carla Toledo Dauden contribuiu para explicar a complexidade do Brasil, muito além do futebol como religião, das mulatas, do carnaval, do samba e da violência nas favelas. A uns meses da realização da Copa do Mundo, sua máquina fotográfica captou a ebulição social que seu país vive e que milhões de pessoas puderam ver num vídeo de seis minutos, graças à Internet.

Carla Dauden

Sentada na frente de um computador em Los Ángeles, nos Estados Unidos, a milhares de quilômetros de São Paulo, onde nasceu. Aos 12 anos de idade, mudou-se com sua família para Florianópolis, no sul, depois de um incidente violento em que seu pai quase perdeu a vida.

Agora curte a cidade californiana onde estudou e onde exerce sua paixão pelo cinema e pela fotografia. Assegura que Los Ángeles oferece uma vida cheia de diversão, diversidade e oportunidades para quem trabalha na indústria do cinema. Tem a intenção de trabalhar nos Estados Unidos e no Brasil, de “ida e volta”. “Sinto muita saudade do Brasil”, diz.

Carla Toledo Dauden contribuiu para explicar a complexidade do Brasil, muito além do futebol como religião, das mulatas, do carnaval, do samba e da violência nas favelas. A uns meses da realização da Copa do Mundo, sua máquina fotográfica captou a ebulição social que seu país vive e que milhões de pessoas puderam ver num vídeo de seis minutos, graças à Internet.

Seu cabelo claro, pele branca, olhos verdes e sotaque americano sem fissuras ao falar inglês também contribuíram para quebrar estereótipos sobre um país que não se pode desprender de sua complexidade mestiça: índios, italianos, alemães, holandeses, espanhóis, portugueses, africanos e asiáticos. Essa diversidade dá uma riqueza enorme como seu território, que engloba quase tanto espaço como toda a Europa continental, embora também tenha sido utilizada durante séculos para dividir, discriminar e excluir os mais desfavorecidos.

A entrevista é feita por Skype. Não é fácil sincronizar-se com 9 horas de diferença no relógio.

Quando decidiu fazer um vídeo para se posicionar contra a Copa do Mundo?
Foi muito antes que se intensificassem os protestos. O fato de o estar elaborando durante esses meses foi apenas uma coincidência. Primeiro, pensei no vídeo em maio de 2013, o gravei no começo de junho e estava pronto quando as manifestações se intensificaram. Foi curioso porque tinha tantas informações que pensei que o vídeo ficaria morto. Mas aconteceu justamente o contrário.

O que aconteceu com os outros dois vídeos?
Não tiveram tantas visitas nem foram tão compartilhados. Não sei porquê, é um pouco frustrante. No primeiro explico o que acontece, exponho o problema. O segundo dá às pessoas formas concretas, nas quais podem se implicar e participar. Depois do primeiro vídeo, muita gente me enviou mensagens para perguntar como podiam ajudar. Suponho que os últimos vídeos são mais “políticos”, mais chatos e as pessoas têm menos paciência e perdem a concentração. Talvez tenha sido a escolha do momento para publicá-lo, poucos dias antes da visita do Papa ao Brasil. Mas o importante é que eu me posicionei. Se se compartilha, ótimo e, se não, pelo menos fiz o que me correspondia. Com o primeiro vídeo sinto que mudamos a forma em que as pessoas veem eventos esportivos como a Copa do Mundo e contribuiu para lutar contra certos estereótipos.

A Copa do Mundo reforça a desigualdade no Brasil?
O fato de o governo querer levar a Copa para o Brasil não piora a situação, já é em si horrível. Simplesmente é absurdo. Temos tanta desigualdade que, por que a levaríamos? Imagine que tenho uma família muito pobre, não posso pagar a comida de meus filhos, minha casa é um caos, não sai água do chuveiro e de repente digo: “vou organizar uma festa!” Não provoca desigualdade, mas a reforça e a torna mais evidente. O fato de estarem despejando pessoas de suas casas por tão pouco dinheiro é uma tremenda falta de respeito. E a forma como estão fazendo… viola os direitos humanos. Não diria que só a FIFA tem responsabilidade. É principalmente um erro do governo, e logo da FIFA por não se assegurar de que estes eventos estão sendo feitos adequadamente e por olhar para o outro lado. Estão fazendo a mesma coisa com Catar.

Utilizou-se dinheiro de hospitais, escolas e transporte na construção de estádios?
Não “no lugar de”. O governo argumenta que gasta suficiente dinheiro em escolas e hospitais; “este é o orçamento”, diz. Então lhes pergunto: “Vocês viram nossas escolas públicas? Onde se vê o dinheiro?” Não se reflete em nossa realidade. Por isso não é que estejam utilizando dinheiro que poderia ser investido para um transporte eficaz, para escolas ou hospitais. Mas estamos em tão mal estado que cada centavo conta e é quase uma falta de respeito. Podemos voltar ao exemplo da casa. Poderíamos ter trens que conectassem o Brasil de norte a sul. É mais caro viajar dentro do Brasil que voar para outros países. Além de uma falta de respeito, tudo isto mostra uma completa falta de prioridades.

O descontentamento é tão grande que as pessoas deixam de lado o futebol num país como o Brasil ou é que o futebol não era tão importante?
O futebol é muito importante. Os brasileiros têm uma grande paixão por este esporte, é uma parte muito importante de nossa cultura, mas as pessoas começam a reorganizar suas prioridades. Muitas pessoas me disseram que amam o futebol, mas entendem meus argumentos. Protestar não significa que tenham deixado de gostar. O fato de os jogadores serem vendidos com tanta facilidade, de a Copa ter tão pouca importância, de as grandes estrelas jogarem em outros países… já nada tem sentido porque o esporte se globalizou demais.

Você ganhou inimigos com seus vídeos? Como faz para lidar com os ataques?
Ganhei, mas eu contava com isso. Li os comentários na primeira noite e depois simplesmente parei. Não me pareceram ruins e pensei que podia ser muito pior. De fato, a maior parte das respostas foi positiva. O mais aterrorizador foi que muita gente dizia que meu vídeo era parte de algum movimento da extrema direita. Diziam que promovia um golpe de Estado. Minhas ideias podem ser encaixadas na esquerda, mas isso não significa que eu apóie este governo. Realmente sou contra. Mas muita gente disse que tinha vínculos com a CIA… O problema é que uma parte da direita utilizou meu vídeo porque se posicionava contra o governo e o postaram em suas páginas web. Foi terrível porque suas ideias não representam quem eu sou. Puseram em minha boca palavras que eu não falei. Isso foi o pior.

Por que o Brasil decidiu realizar a Copa? Houve corrupção?
Iria longe demais com semelhante afirmação sem uma investigação séria. Só posso dizer que o Brasil pressionou muito forte para ganhar a Copa. Vinha acompanhando o pacote que o Lula tentou vender. A FIFA tem escolhido países empobrecidos de que podem se aproveitar e tirar mais dinheiro. É mais fácil mudar as regras do jogo nesses países.

Como avalia a cobertura dos meios internacionais do que está acontecendo no Brasil?
Até se produzirem os protestos, os meios não tinham se centrado nos despejos nem nas condições de trabalhos. Tinham mostrado muita condescendência com a Copa do Mundo até esse momento. Foi interessante mostrarem depois tanta sensibilidade para o que as pessoas como nós que fazemos parte deste movimento queriam explicar. Grandes canais me contataram: Al Jazeera, BBC, The Discovery Channel; estive no Le Monde… Isso eu não esperava. Muita gente vai ao Brasil para fazer documentários e contar “o outro lado” da história. Não sei se isto vai acontecer durante a Copa do Mundo, mas às vezes é triste ver como os meios deixam se levar pelo “candente”.

Você acha que os protestos crescerão e serão mais violentos?
É difícil de prever e estamos num momento delicado porque há muita violência e isso assusta muita gente. É frustrante que haja milhares de manifestantes e que uma única pessoa possa deslegitimar todo o movimento. Mas é difícil saber para onde vai tudo isso. Ou as pessoas vão se esquecer por estarem transbordados pela festa e diversão, o que seria triste, ou os protestos se tornarão mais intensos. O que me assusta é que, se a violência persistir, menos pessoas se interessarão em participar.

Carlos Miguélez Monroy
Jornalista
Twitter: @cmiguelez
http://www.carlosmiguelezmonroy.com
Entrevista traduzida por Simone Nascimento Campos, professora da Casa do Brasil, em Madri

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2 Responses to Carla Toledo Dauden: «é absurdo realizar uma Copa do Mundo no Brasil»

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